Baltimore

Eis que de uma sexta pra sábado, madrugada sem balada na cabeça, cansado da semana que misturou alegria com tristeza, eu ponho pra tocar no celular, no sofá da sala, as melhores da Nina Simone, mulher que amo há uns anos.

Posso dizer que, antes de fazer isso, se essa semana fosse uma bebida num copo, não saberia dizer se estaria mais doce ou mais amarga. Enfim, não era pra acontecer nada de mais hoje, nada extraordinário, fora do comum.

Mas, como disse, eu pus pra tocar no aleatório músicas da Nina Simone. Eu pensei, no início do ano, que 2019 não ia me render descobertas no mínimo legais. Eu ando entristecido pela ilegalidade de vários atos um tanto amargos pro gostinho de um Estado Democrático de Direito. Lá no início do ano de 2019, eu tava avassalado por mais uma derrota da democracia na última eleição presidencial. Bolsonaro no poder etc. Uma avalanche de pancadas no estômago e uma sensação de derrota da humanidade inteira.

Daí que começou a tocar no meu celular “Baltimore” da Nina Simone, que eu não conhecia até então. Simplesmente, nos meus 30 anos de idade, começou a tocar a melhor música dela pra mim. Tipo, eu acabei de descobrir, em outubro de 2019, um ano após aquele clima tenso de eleições do ano passado, a melhor música da Nina pra mim.

Foda. A Arte sempre salva. Mas somente quando oportunizada de ser experimentada, quando respeitada pela memória de um povo, quando permitido e incentivado o acesso por governantes. A censura é verdadeiramente um ato de ingratidão de quem a pratica. Ingratidão com as oportunidades que poderiam ser vivenciadas. E quem poderia ser grato à Arte, infelizmente pode pagar pelo pecado praticado por quem supostamente estaria lhe representando. É a injustiça. Paga-se mesmo sem dolo, sem culpa. A Arte atravessa o tempo, atravessa a gente. Qualquer gente. Toda gente. Por tamanha travessia nesse mundo todo aqui, carrega consigo sentimentos, memórias, conhecimentos, experiências de muitos e muitos séculos. Ela sopra na gente essências da humanidade que muitas pessoas de má-fé supõem ser mais prudente mantê-las em segredo, digo, censurar a Arte.

“Baltimore” me soa um reggae gostoso que fala que as cidades estão morrendo e eles não sabem porquê. Fala de fuga da cidade, um fugere urbem, um êxodo urbano. A maioria vulnerável da população brasileira ainda não viu a terra prometida em nossa Constituição brasileira. Por exemplo, é muito triste saber que no dia 22 de setembro desse ano um rapaz gay foi espancado quase até a morte no dia do próprio aniversário por um grupo de pessoas desnaturadas do que é bom, que o cercou covardemente na saída de uma festa. Será que estamos morrendo de amor ou de rancor? Será que existe gente morta com o coração ainda batendo por aí?

Que medo. Tenho medo de “mortos-vivos”. Melhor dizendo, tenho medo de vivos-mortos. Morto vivo é quem morreu, mas continua vivo, quem continua com o coração batendo através dos nossos corações. Tipo a Marielle, que morreu, que foi assassinada, mas continua viva no coração de muitas pessoas, de muitas mulheres injustamente marginalizadas. Já o vivo morto é aquele que continua andando por aí, batendo com força no coração, batendo no peito de quem não deveria bater, mas que apesar de tanto vigor, tá morto por dentro, com rancor, com medo. Que tristeza.

Que alegria, porém, tá sendo sentir “Baltimore” da Nina Simone no repeat pela primeira vez na vida. A Arte sempre surpreende. O curso da vida talvez seja feito de sensações interessantes. Por isso é importante permitir a si mesmo viver a Arte. Mas essencial mesmo é permitir que toda a gente viva a Arte. O Estado deve dar liberdade à Arte, porque se assim não for, a Arte vai transgredir, vai subverter, vai incomodar. E talvez o intuito da Arte, se tiver um, nem seja incomodar a gente. Talvez nós que fiquemos incomodados.

Enfim, é difícil falar sobre Arte. Acho até que não tenho jeito pra isso. Eu prefiro senti-la. Ouvir o que diz. Apreciar a Nina cantar “Baltimore”. Num sábado quase de manhã, sob o sol em Libra, regida por Vênus, vivendo essa experiência extraordinária, meio doce, meio amarga.

4 comentários em “Baltimore

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s