A solidão não é o fim da expansão.

Ultimamente, tem sido mais difícil me por em poema que em prosa. Na prosa, há períodos e períodos que se seguem ofegantes com breves pausas. Parece até que se joga assunto fora na abundância do parágrafo, uma conversa fiada. Prosa eu tenho até na companhia feliz e falante de amigos, em qualquer sacada, com a língua solta.

Já o poema tem surgido da minha solidão enquanto poeta, em que nada se desperdiça, pois nenhuma palavra vem de graça. É solitário e custoso. Uma exposição dolorosa. Vem num contexto no qual se trava a língua, a boca, as narinas, os buracos das excreções e até mesmo os poros da minha pele. Tudo tenta fechar-se para dentro de mim. Todavia, não mais que num milésimo de um instante, cai um raio e minhas mãos se espasmam a escrever.

Talvez o poema nasça em mim num momento em que hesito me comunicar e, por isso, tento fechar todos meus acessos. Mas a Alma, numa insistência poética revolucionária, arruma um jeito solitário de se por e de nascer. É poente de certa forma, mas nascente de outra.

O poema me soa, às vezes, como minha própria derrota, resultante da minha vã tentativa de manter a Alma presa no meu corpo. Mas até na solidão a Alma se sente na importância de se anunciar. É expansiva como o Universo. E se expande em versos. Paralelos que são, dão um jeito misterioso de se encontrarem lá no além, na sutileza de um momento de conexão que revela a Grande Essência do poema, da minha vida. Uni-versos.

Não é que na prosa eu não exista enquanto poeta. Não, não. A Poesia não tira descanso nem quando durmo. É que no poema há um silêncio necessário na passagem de um verso para o outro. Quem nunca se viu imerso num verso, ficou ali perplexo e perdeu a sequência da estrofe? Não há pressa. É um ritmo diferente de vida pra mim, talvez inverso, ou multiverso, em que a morte também se faz presente. Tem verso que mata a gente e, para prosseguir, há que ressuscitar, processo que tem se dado no silêncio, no íntimo, na dor. Enfim… acho mesmo que verso não se lê a torto e a direito. É preciso de fôlego, oxigênio. Declama-se, um por um.

Quem sabe o poema, na verdade, não esteja sendo minha própria vitória sobre mim mesmo. Um ato de coragem que me cai como um raio, num instante. Uma forma de me expandir mesmo na solidão para não tornar minha tristeza em vão. Uma revolução.

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